INÍCIO

 

 

Centro de Trabalhadores da Amazônia, 26 anos forjado na luta

Vânya Regina Rodrigues da Silva

 

Na Década de 70 o Acre estava vivendo o inicio de uma luta entre seringueiros e fazendeiros vindos do sul do país atraídos por uma política nacional, regional e local de ocupação da Amazônia impulsionado pela desvalorização da borracha, falência dos seringais e venda das terras a baixo preço. Daí o caminho foi aberto para uma nova “colonização” que primava à substituição da floresta por campos e pastos.

 

Essa onda de colonizar destruiu grande parte das Florestas de Rondônia, logo a BR 364, cortou o Estado de uma ponta a outra, trazendo o desenvolvimento e também alastrando o desmatamento. No Acre, rolou muita bala correndo solta e matança literal para intimidar seringueiros a abandonar as suas terras vendidas pelo governo para fazendeiros, com eles dentro, como se não fossem “ninguém”.

 

Muitas famílias foram expulsas, mais muitas resistiram e começaram a se organizar. Criaram seu primeiro Sindicato, em 1975 com o apoio da Confederação dos Trabalhadores da Agricultura-CONTAG, e passaram a lutar de forma organizada contra o desmatamento, se opondo a violência imposta pelos fazendeiros sulistas.

 

No inicio da década de oitenta desenharam as primeiras idéias de reforma agrária dos seringueiros plantando a semente do que hoje são as Reservas Extrativistas no Acre e os Projetos de Assentamentos Agroextrativistas. Pois bem, organizados e discutindo seu destino os seringueiros colocaram a escola como ferramenta necessária para a sua libertação da exploração do atravessador.

 

Muitos teóricos dizem que a educação não liberta, ou não é libertadora. Ela apenas mantém o status quo. Os seringueiros não comungavam dessa concepção. Entendiam e viam na educação a sua liberdade através dos conhecimentos fundamentais básicos: ler, escrever e contar somado ao conhecer as leis trabalhistas para fortalecer o movimento pela causa.

 

Toda essa organização contou com vários lideres de base, dentre eles, Wilson Pinheiro, Ivair Higino, Chico Mendes, Raimundo de Barros entre outros que deram e dão seu sangue por dias melhores. Em 1981 foi desenhado o Projeto Seringueiro voltado para implantação da primeira cooperativa, alfabetização de adultos e pesquisa da situação de saúde da população com o propósito de implantar o primeiro Posto de Saúde. Essa empreitada teve como objetivo principal propiciar condições dos seringueiros administrarem seu próprio negócio e tornarem-se autônomos, melhorando assim, suas condições de vida. Nascia assim, o Projeto de Educação fundamentado em uma concepção de educação para a autonomia.

 

Em 1982, a primeira escola Wilson Pinheiro, começou a funcionar e daí outras escolas foram sendo abertas pelas comunidades. Muitas foram às pessoas da cidade, solidárias a esse movimento que ao longo da década contribuíram com o fortalecimento da organização e da luta: Mary Alegretti, Fátima Silva, Pascol Torres Muniz, Marlete Oliveira, Ronaldo Lima de Oliveira, Paulo klain, Binho Marques, Júlia Feitoza, Marina Silva, Adjalcir Rodrigues Ferreira, Ademir Pereira Rodrigues, Mauricília da Silva Leão, Manuel Estébio Cavalcante dentre outros que comungavam com os mesmos ideais de luta dos seringueiros pela permanência na terra e pela manutenção da floresta em pé.  Não tem como falar da trajetória do Centro dos Trabalhadores da Amazônia-CTA, sem passear por este painel histórico uma vez que foi neste bojo que a Instituição surgiu no ano de 1983 para abrigar as ações do Projeto Seringueiro, com a missão de contribuir para a consolidação das Reservas Extrativistas e promovê-las como um conceito de desenvolvimento sustentável baseado numa cultura de uso sustentável da floresta.

 

No dia 28 de maio, o CTA completa 26 anos de caminhada. Nessa caminhada, muitas escolas foram construídas pelos comunitários, crianças, jovens e adultos foram alfabetizadas. A instituição liderou no campo de formação de professores, criou e experimentou uma metodologia própria e diferenciada tanto para a formação de professores quanto para o acompanhamento pedagógico e, sobretudo, publicou livros adequados a povos de tradição oral, respeitando sua cultura e modo de viver. Esse trabalho pioneiro favoreceu a expansão da escola cada vez mais para o interior da floresta numa iniciativa sempre conjunta entre sindicato, comunidade e igreja católica. Hoje, muitos professores que foram alfabetizados e pós-alfabetizados dentro da metodologia do Projeto Seringueiro, continuam em sala de aula em suas comunidades e estão cursando o Ensino Superior. Hoje, a educação escolar nos seringais, virou política pública fruto dessa caminhada. A Reforma Agrária do Seringueiro saiu do campo das idéias e tornou-se uma realidade- As Reservas Extrativistas e Projetos de assentamento Agroextrativistas foram criados.

 

A vida é sempre assim, um ciclo de luta termina e outro está em andamento. Hoje no Acre, a luta não é contra o fazendeiro, a luta é pela organização, para fortalecer cada vez mais a luta pela qualidade de vida. Hoje, as associações são uma realidade dentro dos seringais. Nesta caminhada, o CTA vem ao longo dos anos, prestando assessoria, realizando formações em gestão de organizações comunitárias e atuando com assessoria técnica para organização da produção, em formações de jovens e adultos, homens e mulheres, em cursos de formação com enfoque em manejo florestal de uso múltiplo.

 

Essa luta continua. A cada dia surgem novos desafios para os seringueiros e para o CTA que continua firme no seu propósito de formar os seringueiros, trabalhadores e guardiões de nossas florestas para a autonomia.

Parabéns ao Centro de Trabalhadores da Amazônia pela caminhada de lutas e conquistas e as muitas pessoas, lideranças, diretoria, coordenadores, sócios e técnicos do CTA que participaram e participam desta construção.

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