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Projeto Seringueiro: relato de uma experiência Ademir Pereira Rodrigues
No ano de 1981, quando eu trabalhava de carpinteiro, construindo uma casa para o Pedro Teles, na comunidade Pimenteira, tive o privilégio de participar da primeira reunião, na comunidade onde foi tratado, pela primeira vez do assunto de escola para seringueiros. A reunião foi coordenada pelo Chico Mendes (idealizador da proposta) e a antropóloga Mary Allegretti, coordenadora do CEDOP (Centro de Documentação e Pesquisa da Amazônia) que na época foi a entidade que financiou as primeiras ações do PROJETO SERINGUEIRO. Ao final da reunião, por ser da comunidade e saber ler um pouquinho o próprio Pedro Teles foi o escolhido para ser monitor/professor que posteriormente participaria do primeiro curso de formação para atuar na escola proposta naquela comunidade. O assunto gerou uma polêmica e foi muito comentado, tanto na comunidade local, Pimenteira, como nas outras comunidades que também estavas recebendo a mesma proposta. Alguns acreditavam e a maioria dizia que aquilo era coisa de quem queria se eleger nas próximas eleições. A história só começou a ganhar uma versão diferente nas comunidades quando chegou o convite para os escolhidos viajarem para Rio Branco, onde seria realizado o tão falado e duvidoso curso de formação, com duração de um mês.
Já no ano de 1982, antes do Pedro Teles viajar para Rio Branco, onde seria realizado o curso, aconteceu uma reunião onde foi decidido o seguinte: A comunidade foi responsabilizada e assumiu o compromisso de dar conta de uma casa de chão-batido, coberta de palhas, bancos de paxiuba e somente uma parede de paxiuba, do lado que seria afixado o quadro de giz, e o Ademir, por ser considerado o carpinteiro da comunidade, seria o mestre de obra. Dessa forma, tudo o que foi planejado foi também realizado dentro do tempo previsto. Os interessados que se dispuseram a ajudar nos trabalhos de construção da casa/escola, ainda eram poucos, pelo fato de não acreditarem que aquela história poderia dar certo. Todos éramos voluntários. O grande fato foi que quando o Pedro Teles (professor/monitor) voltou do curso, “preparado” para assumir a sala de aula, tudo e todos estavam prontos e ansiosos pelo inicio das aulas. Quando se “espalhou” a noticia de que as aulas começariam na data prevista para o inicio do ano de 1984, a comunidade compareceu em peso, inclusive os que não acreditavam e, a primeira “matrícula”/ lista de alunos, ganhou um número de 36 participantes. Naquele momento o monitor recebeu como material de apoio pedagógico, uma ficha de orientações como se fosse um planejamento de aulas, um quadro de giz, lápis e cadernos para os alunos e para ele e uma boa dose de incentivo de encorajamento por parte da equipe técnica do PS. Foi naquele momento que fui convidado, inclusive pelo próprio monitor, sendo que dessa vez, para auxiliá-lo em sala de aula. Como eu, Ademir, já tinha o primeiro grau, uma grande amizade com todos da comunidade e muita vontade de ser um professor, não pensei nem meia vez, já aceitei e iniciei minha carreira no magistério, o que até hoje não estou arrependido.
A partir do ano de 1982, trabalhei como voluntário por 3 anos, desde a construção da primeira casa-escola. Em seguida assumi a função de monitor/professor na escola Jesus Matias, na comunidade Pimenteira, por mais 4 anos. Durante esse período de tempo que passei trabalhando na escola, enfrentei várias dificuldades para dar conta do compromisso que assumi, na intenção de dar um retorno satisfatório para a comunidade que acreditou e confiou num trabalho de boa qualidade que eu poderia desenvolver. Daí, incentivado e auxiliado pela equipe técnica do Projeto Seringueiro, comecei a preparar outras pessoas que pudessem assumir uma turma de alfabetização, para que, no momento em que um dos monitores precisasse sair da comunidade ou ter que assumir outra função, a escola não viesse a sofrer a perca do monitor e o prejuízo para os alunos. Essa era uma das preocupações da equipe responsável técnica do Projeto Seringueiro. Depois, por algumas questões pessoais, decidi que ia deixar a escola e então fui convidado para fazer parte da equipe técnica do Projeto Seringueiro, onde permaneço até hoje. A escola continuou funcionando normalmente, uma vez que um dos alunos mais “desenvolvido” assumiu o cargo de monitor e eu passei a apoiá-lo com mais freqüência e mais preparado para aquela situação, tanto na escola Jesus Matias como nas outras que naquela época já contavam em número de 8 escolas.
O trabalho de supervisão nas escolas era muito difícil, as escolas eram todas distantes, não havia ramais de acesso à nenhuma delas e a equipe técnica era também muito reduzida. As viagens para as visitas de supervisão eram todas realizadas a pé ou de barco, chegando a gastar até 2 dias de viagem para chegar numa escola, A equipe contava com 4 pessoas, sendo 2 em Rio Branco, que preocupavam-se com a parte burocrática, e que contavam com relações com parceiros, governo, projetos, enfim... eram dois para dar conta de tudo o que precisasse para garantir e manter o Projeto Seringueiro vivo; E em Xapuri, mais 2 pessoas (2 supervisores) para dar conta de 8 escolas ao longo dos seringais, chegando a viajar até 20 horas a pé para chegar a uma escola. É uma experiência e tanto e o aprendizado adquirido, esse tem sido o melhor de todo esse trajeto na minha vida de educador no Projeto Seringueiro.
Desde as primeiras experiências, em trabalhos coletivos/multirões na comunidade que aconteciam com muita freqüência, tanto nos trabalhos da escola como em “limpas” de varadouros, roçados para cultivos de agricultura familiar e outros, dali comecei a perceber que uma das grandes verdades da linguagem sindical é que “A UNIÃO FAZ A FORÇA”. Com isso me reforçava a idéia de fazer algo que fosse beneficente às comunidades e a oportunidade que tinha naquele momento era na área de educação que abracei com muito interesse e disposição.
No trabalho de supervisão, além das mais variadas dificuldades, tínhamos o problema de transitoriedade de pessoas que compunham a equipe. Muitos passaram pelo Projeto Seringueiro e em sua maioria, deixavam um problema maior pelo fato de não demorarem e ainda levavam consigo todas as experiências e conhecimentos adquiridos.
A equipe vivia sempre procurando alguém que tivesse disposição e coragem para encarar as realidades e dificuldades naquela missão de fazer educação ao longo dos seringais.
Com a criação do CTA, mesmo com dificuldades, as coisas começaram a melhorar, no sentido de que, foram criados os setores distintos e cada um cuidava com mais especificidade do que lhes era de direito. Aumentou o número de escolas, aumentou o número de professores e aumentou também o número de supervisores e com isso o trabalho de educação, por sua vez, também ganhou uma cara melhor. A equipe continuou sofrendo com o e”ntra e sai” de pessoas, mas apesar de tudo, como o Projeto Seringueiro já havia ganhado uma estrutura melhor, ficou mais fácil de conseguir gente para trabalhar. Para ter idéia, só em Xapuri, passaram pela equipe de educação do Projeto Seringueiro 10 pessoas que foram: Pedro Teles, Jorge G. Pinheiro (“Jorge Roxo”), Valquíria, Maria Almira, Gean, Sebastião Barbosa, José Pereira, Dercy Teles, Manoel Estébio e eu, Ademir, que continuo até não sei quando para contar essa história. Quanto aos que passaram pelo Projeto Seringueiro que eram de Rio Branco e de outros lugares, eu nem sei se lembro de todos, mas passaram: Ronaldo, Marlete, Fátima, Armando, Fábio, Reginaldo Castela, Graciete, Binho Marques, Cabral, Laécio, Quinha, Socorro, Pingo, Cila e talvez outros que não lembro.
Nessa correria, de sempre ter pessoas novas na equipe, o Projeto Seringueiro teve vários prejuízos no desenvolvimento das atividades. Sempre que entrava alguém, precisava de ajuda para entender o que fazer como fazer e onde.
O trabalho de supervisão sempre foi uma das atividades mais difíceis, pelo fato das dificuldades de acesso, o tempo de permanência nas escolas que era de uma semana para cada visita e o peso que teríamos que levar nas costas, principalmente quando era época das friagens, além de muitas das vezes que éramos obrigados a viajar no Sol, na chuva e até com fome, por conta de não podermos levar tudo o que era necessário para suprir todas as necessidades, em todos os momentos, durante as viagens, sem contar com os riscos de dar de cara com uma onça, cobra ou uma tempestade no meio do mato.
Depois do governo do Jorge Viana, as coisas mudaram muito, em alguns aspectos. Foram abertos vários ramais nas áreas da RESEX Chico Mendes, o CTA mandou uma moto para Xapuri e o trabalho de deslocamento foi melhorado, o que continuou como antes, foram as escolas que só têm acesso de barco pelos rios.
Uma das coisas que lamento muito ter acontecido foi o fato de que durante muitos anos de luta ao longo dos seringais, tanto na área de educação como na área de saúde, o CTA construiu um laço de amizade muito grande e conquistou uma grande confiança nas comunidades, pelo bom trabalho que desenvolveu. Só que, com o passar dos tempos, com a falta de recursos para a educação, de certa forma o trabalho foi meio “esquecido” e as áreas meio que “abandonadas”. Isso gerou um questionamento que até hoje nas comunidades as pessoas continuam perguntando: cadê o CTA ? Ao visitar uma das áreas de atuação do CTA, percebe-se visivelmente que as pessoas ainda não se convenceram e nem entenderam que o CTA, através do Projeto Seringueiro, “cumpriu” sua parte na área de educação e que o Estado é o maio responsável pelo trabalho e, portanto, deveria assumir a continuidade do trabalho já existente. As pessoas, em sua grande maioria, não entendem que o Projeto Seringueiro não tem como trabalhar a proposta de Ensino Médio ao longo dos seringais, o que é um desejo deles. É muito claro que as comunidades gostaram da presença do CTA nas comunidades, bem como do trabalho que foi desenvolvido ao longo de todos esses tempos. Aí vem a satisfação desses mesmos longos anos de trabalhos difíceis e árduos.
Em muitos momentos dessa maratona de educador, cheguei a pensar que teria que mudar de ramo porque parecia que o meu trabalho não estava surtindo efeitos. Às vezes perguntava a mim mesmo: O que estou fazendo? O que aconteceu com o trabalho que realizei? Quem foi beneficiado? Porque continuar fazendo o que nem eu mesmo vejo? Mas com o passar dos tempos, anos depois, comecei na perceber os resultados e veja o que aconteceu: Muitos dos primeiros alunos passaram a ser professores, agentes de saúde, agentes e gerentes de cooperativas, presidentes do STR de Xapuri, presidentes da AMOPREX e muitos outros que assumiram alguns cargos até junto às administrações públicas, sem esquecer que a maioria dos primeiros professores está cursando uma faculdade. Depois que vi tudo isso acontecendo, fiquei animadíssimo e acreditei que meu trabalho não foi, não é e nem será em vão, que meu objetivo principal foi atingido que era de dar retorno às comunidades e, o que não foi diretamente às comunidades, mas foi para alguém de lá.
Hoje continuo no CTA, gosto muito das pessoas que compõem o grupo de trabalho e, mesmo sem fazer educação como era antes, pretendo, de alguma maneira, ainda levar algo de benefício aos povos dos seringais.
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