INÍCIO

 

 

DISCIPLINARIZAÇÃO DOS CORPOS INFANTIS: uma marca da escolarização

Evandro Araújo de Aquino ¹

 

RESUMO: Este trabalho tem como objetivo apresentar algumas análises e reflexões acerca da temática de disciplinarização dos corpos infantis. O trabalho está organizado a partir de observações presenciais do cotidiano escolar durante a realização da disciplina de Estágio Supervisionado VI (segundo semestre de 2009). Os episódios observados e aqui destacados serão submetidos ao suporte teórico de autores que tratam dessa temática durante o percurso histórico educacional. Para se alcançar os resultados esperados, parte-se da perspectiva de que a vivência do cotidiano escolar possibilitou a reflexão sobre os aspectos inerentes à teoria e prática, eixos centrais da formação pedagógica. Como principal resultado, constata-se que a disciplinarização dos corpos é uma construção histórico-social, desenvolvida no seio da instituição escolar e intensificada com o advento da modernização da Pedagogia como ciência e arte de ensinar. Portanto, conclui-se que tempo e espaço constituem-se mecanismos disciplinares centrais da ação escolar.

 

PALAVRAS-CHAVE: Educação. Disciplinarização dos corpos infantis. Tempo e espaço.

 

1-            INTRODUÇÃO

O presente trabalho tem como foco central apresentar algumas análises e reflexões acerca do processo de disciplinarização dos corpos infantis no cotidiano escolar. Esta iniciativa faz parte de uma estratégia acadêmica da disciplina de Investigação e Prática Pedagógica que tem como objetivo possibilitar que os alunos vivenciem as práticas do cotidiano escolar, relacionando-as com os aspectos teóricos estudados no decorrer do curso de Pedagogia, o que culminou na produção deste artigo. Nesse sentido, busca-se demonstrar os elementos observados e relacioná-los com alguns referenciais teóricos que dêem consistência à discussão.

 

A produção deste artigo também tem subsídios das observações e discussões acadêmicas, possibilitadas por outras disciplinas que compõem o currículo do curso de Pedagogia, principalmente àquelas que refletem sobre os aspectos ideológicos acerca da temática disciplinarização dos corpos infantis no contexto escolar. Os mecanismos de disciplina utilizados pela escola são perceptíveis, basta pensar nas nossas experiências acumuladas durante nossa vida escolar. A escola demonstra suas práticas de disciplina através de ações que, na maioria das vezes, marcam a vida do aluno e contribuem com a forma em que este passa a se comportar e agir no interior da mesma e/ou na sociedade, tornando-se um indivíduo revoltado “com a própria vida” ou alienado à ideologia do sistema capitalista, preso ao consumismo exacerbado.

 

Numa perspectiva histórica, é possível destacar que a disciplinarização tem sido uma constante no itinerário da humanidade, mudando apenas as características de uma época para outra. Lembro-me das discussões propiciadas pela disciplina de Educação Infantil, ministrada no 3º período do curso de Pedagogia, que possibilitou uma larga compreensão acerca do processo histórico da infância (‘o ser criança’), bem como a apresentação de elementos que apontam mecanismos que garantam o treinamento de corpos dóceis, que estes apenas obedeçam aquilo que os tornem “soldados” de uma determinada sociedade.

 

Chamou-me a atenção a maneira como magistério é exercido pela professora titular da sala de aula que tive a oportunidade de estagiar durante a disciplina de Estágio Supervisionado VI, pois não esconde sua forma de trabalhar, dizendo que é tradicional em muitos aspectos e não faz questão nenhuma de demonstra isso na forma como conduz a sala de aula. Aluno tem que ficar sentado, estudando. Quando chega a hora da merenda e/ou sair para outra atividade, estes devem seguir a ordem da fila. Sempre aquela “velha história” em que prevalece a cultura da fila.

 

2-            APROFUNDANDO A TEMÁTICA

As contribuições teóricas dão conta de revelar os mecanismos de disciplinarização, pois a disciplina, desde a invenção da escola, sempre foi tratada como uma matéria fundamental para o funcionamento desta instituição. Os dispositivos pedagógicos, de alguma forma, estiveram voltados para a correção da disciplina. Ainda no século XVIII, na aurora da sociedade disciplinar, Kant já afirmava a verdadeira função da escola:

 

Enviam-se em primeiro lugar as crianças à escola não com a intenção de que elas lá aprendam algo, mas com o fim de que elas se habituem a permanecer tranqüilamente sentadas e a observar pontualmente o que se lhes ordena. (...) a falta de disciplina é um mal pior que a falta de cultura, pois essa pode ser remediada mais tarde, ao passo que não se pode abolir o estado selvagem e corrigir um defeito de disciplina (CESAR 2004, p. 03 apud KANT 1962, p. 71)

 

Essa afirmação de Kant fornece todas as evidências sobre a função disciplinadora da escola desta época. Temos também como referência as análises de Narodowsky (2001), em que este faz uma abordagem do modelo de escola proposta por Comenius e La Salle. Segundo a pedagogia de La Salle o professor deveria utilizar a vigilância como forma de disciplinarização dos corpos, de maneira a controlar e impedir todos os comportamentos fora das normas estabelecidas, no qual só haveria castigos se houvesse a indisciplina, sendo isento das punições àquele que confessassem o erro, e a vigilância se estenderia para além dos muros da escola.

Já Comenius propõe em sua obra “Didática Magna”, a simultaneidade sistêmica, em que todos os processos escolares deveriam acontecer em um mesmo tempo em todas as escolas que faziam parte do sistema de ensino. Seu método consistia na ordenação, isto é, o emprego da categoria da ordem em todas as coisas e todos os saberes a serem ensinados, e assim os alunos deveriam agir de forma disciplinada conforme a ordem estabelecida pelo poder constitutivo da instituição escolar.

 

Assim sendo, podemos compreender como a escola controla e regula os corpos infantis que são de certa forma, enquadrados e adaptados a uma ordem já estabelecida e constituída. Podemos assim entender que os corpos infantis na escola são estimulados a se adequarem ao tempo e espaço, respeitando e aceitando o controle que lhes oferecem.

 

Numa perspectiva histórica, percebemos que a relação tempo/espaço se intensificou ainda mais com o advento da modernização da pedagogia, no século XX. Isso fica evidente nas formulações de Dussel e Caruso (2003) ao abordarem “a sala de aula em idade de casar: a tática escola do século 20”. Na visão desses autores, ocorreram três grandes mudanças no que concernem as práticas escolares que foram decisivas para a conformação da infância na perspectiva da intensificação dos mecanismos disciplinares da instituição escolar:

 

Em primeiro lugar, o próprio docente passou a estar sujeito à disciplina. Em um sistema de massa, que contava com grande número de professores, tornou-se decisiva a necessidade de estabelecer regras para suas atividades, de contar com informações mais detalhadas sobre seu gestual e de garantir que ensinassem o que fosse determinado pelo Estado. Em segundo lugar, houve uma mudança nas atitudes com relação à infância: não só devia ser controlada, mas também protegida e “civilizada”. Por último, a pedagogia adquiriu uma força inusitada: transformada em “ciência e arte de ensinar”, tornou-se a base dos dispositivos de controle e também a fonte de muitas posturas de oposição (p. 159-160).

 

3-            CONSIDERAÇÕES FINAIS

As observações, análises e reflexões realizadas acerca do processo de disciplinarização dos corpos infantis possibilita-nos compreender os mecanismos disciplinares construídos historicamente pela humanidade, especialmente, as ações concernentes à governabilidade da instituição escolar. Considera-se que a literatura levantada respondeu as expectativas objetivas no que diz respeito ao esclarecimento sobre as nuances dos mecanismos de disciplinarização utilizados no cotidiano escolar.

 

O caminho metodológico percorrido possibilitou a permear nos meandros da relação entre tempo e espaço, garantindo assim, a compreensão dos elementos historicamente construídos, confrontando-as com as informações observadas durante o estágio.

 

Considera-se de grande valia a realização de trabalhos como esse, proporcionada pela presente disciplina acadêmica do curso de Pedagogia, pois tem possibilitado aos educandos a busca incessante por novos conhecimentos científicos, fazendo a relação entre prática e teoria e construindo novos saberes.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CESAR, Maria Rita de Assis. Da escola disciplinar à pedagogia do controle. Tese de Doutorado. Universidade Estadual de Campinas> Faculdade de Educação. Campinas, 2004.

DUSSEL, Inês e CARUSO, Marcos. A invenção da sala de aula: uma genealogia das formas de ensinar. São Paulo: Moderna, 2003.

 

¹Acadêmico do 6º período do Curso de Licenciatura Plena em Pedagogia pela Universidade Federal do Acre.

 

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